Pesquisa do Instituto Mamirauá joga luz sobre ocupação humana da Amazônia

Em expedição ao rio Juruá, 26 sítios arqueológicos foram encontrados. “E isso é só uma fração do que tem realmente na área”, afirma o antropólogo Márcio do Amaral.
por ASCOM - publicado 09/10/2018 10h48. Última modificação 09/10/2018 10h49.
Pesquisa do Instituto Mamirauá joga luz sobre ocupação humana da Amazônia

Em expedição ao rio Juruá, 26 sítios arqueológicos foram encontrados. Foto: Instituto Mamirauá

Em um período estimado entre 3 e 4 mil anos atrás, um grupo de pessoas viveu suas tradições, ritos, disputas e festejos às margens do baixo curso do rio Juruá, no que hoje conhecemos como estado do Amazonas. Atualmente, esse grupo é identificado pela cerâmica que produziam – o padrão Pocó. Os vestígios desse e de outros povos são estudados por pesquisadores do Instituto Mamirauá.

Além de procurar entender como os povos que existiram ao longo do rio Juruá moldavam a paisagem, a pesquisa também observa a interação da população ribeirinha com os “cacos de índio” – como costumam se referir aos artefatos arqueológicos, encontrados nas expedições arqueológicas à região do baixo curso do rio Juruá, afluente da margem direita do rio Amazonas.

“No que implica ter artefatos arqueológicos dentro de uma comunidade? Como essas pessoas estão se relacionando com esses artefatos? Como isso influencia em seu modo de vida?”, questiona a antropóloga Patrícia Rosa.

O processo de transição entre as diferentes populações humanas que habitaram as margens do rio Juruá ainda é obscuro. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que a região seria pobre em ocupações humanas antigas. “Essa primeira expedição ao baixo rio Juruá possibilitou encontrar 26 sítios arqueológicos. E isso é só uma fração do que tem realmente na área”, explica o também arqueólogo Márcio do Amaral, pesquisador do Laboratório de Arqueologia do Instituto Mamirauá.

As pesquisas sugerem pelo menos quatro ciclos antrópicos (diferentes comunidades humanas): além do padrão Pocó, foram encontradas cerâmicas de padrão hachurado zonado, da Tradição Polícroma da Amazônia e as cerâmicas caboclas temperadas com cinzas de caraipé ou carapaça de quelônios, que até hoje são produzidas na região, mas vêm perdendo espaço para objetos de alumínio ou plástico. Cada um desses estilos representa uma ocupação diferente.

O estudo dos pesquisadores do Instituto Mamirauá também observa a transição e os intercâmbios entre os povos indígenas, que antes habitavam a região, e a população que veio depois, no contexto das migrações do século 19, do Nordeste brasileiro, principalmente do Ceará. Os pesquisadores notaram uma apropriação, por parte dos imigrantes, de técnicas agrícolas, de manejo florestal, caça, pesca e medicina, oriundas das tradições indígenas que antes ocupavam o espaço.

As descobertas permitem afirmar, também, que os povos antigos do Médio Solimões cultivavam relações entre si. “Essas áreas não estavam isoladas. No período pré-colonial e até mesmo colonial, essas áreas se conectavam, havia um fluxo de pessoas indo e vindo. E a gente pode ver isso na cultura material que encontramos nesse sítio”, relata o pesquisador.

O olhar da etnobotânica

Outra curiosidade é a descoberta de castanhais, possivelmente manejados por esses povos, onde antes se imaginava que eles não existiam. A etnobotânica (ciência que estuda a utilização de plantas por comunidades) permite entender como as populações que residiam no baixo curso do Juruá transformaram a flora local, inserindo no ambiente espécies vegetais domesticadas, como o açaí. Dessa forma, é possível compreender um pouco mais de seus hábitos alimentares, por exemplo.

Os pesquisadores também encontraram terra preta na região. Esse tipo de solo, muito rico e com características bem particulares, está associado a ocupações indígenas, funcionando como uma evidência de sua presença. “Mesmo que não encontremos os cacos, através da etnobotânica conseguimos dizer onde houve ocupação. São plantas que não nascem sozinhas, precisam de um manejo humano”, afirma Patrícia.

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