Cientistas precisam “traduzir” suas pesquisas para despertar interesse da sociedade

A avaliação é do pesquisador David Lapola, presidente do Comitê Científico do AmazonFACE – programa do MCTIC que estuda os impactos das mudanças climáticas no futuro da floresta amazônica.
por ASCOM - publicado 14/09/2018 13h56. Última modificação 14/09/2018 13h58.
Cientistas precisam “traduzir” suas pesquisas para despertar interesse da sociedade

AmazonFACE é um programa do MCTIC que estuda os impactos das mudanças climáticas no futuro da floresta amazônica. Foto: Inpa

Os pesquisadores devem traduzir os resultados de seus estudos para que a importância da ciência fique clara para a população, defende o presidente do Comitê Científico do AmazonFACE, David Lapola. O AmazonFACE é um programa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) que estuda os impactos das mudanças climáticas no futuro da floresta amazônica. Segundo Lapola, a ciência vive um momento crítico no Brasil e no mundo, em parte, em decorrência da dificuldade dos pesquisadores em comunicar seus trabalhos científicos.

“Precisamos nos esforçar um pouquinho mais para traduzir nossos estudos, complexos ou não, para que a importância da ciência fique mais clara para a população”, afirma Lapola, que é pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Ele explica que os efeitos das mudanças climáticas serão sentidos por toda a sociedade, e isso não é problema só da ciência. “Num futuro, talvez bem próximo, vários setores socioeconômicos da região amazônica vão começar a sentir esses efeitos. Então, nada melhor do que abrir de forma paulatina esse assunto para a sociedade, sobre o que vai acontecer, para que as várias instâncias saibam tomar as decisões de como enfrentar o problema.”

Lapola participou da abertura da exposição “Amazônia e Mudanças Climáticas: um futuro em fotos, ilustrações e ciência”, que fica no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), até 11 de novembro. A mostra reúne sons da floresta e imagens da concentração de gás carbônico captados por scanners a laser. A curadoria é do artista suíço Marcus Maeder, da Universidade das Artes de Zurique.

“Aliar a ciência com a arte é uma tendência. E essa exposição do AmazonFACE, que trata sobre mudanças climáticas, chega num momento muito importante”, avalia a diretora do Inpa, Hillandia Brandão.

AmazonFACE

O AmazonFACE busca entender o que acontecerá com a floresta amazônica em um cenário futuro de mudanças climáticas, de 50 a 100 anos. Pelas projeções do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), a concentração de dióxido de carbono na atmosfera continuará subindo. Estima-se que, em 50 anos, estará em cerca de 600 ppm (partes por milhão). Hoje, está em cerca de 400 ppm. Este é o cenário que o AmazonFACE quer simular dentro da floresta.

“Nosso experimento vai imitar essas condições numa parcela grande da floresta. Vamos aspergir CO2 na copa das árvores por um período de dez anos, para vermos hoje o que acontecerá com a floresta amanhã”, diz o gerente executivo do AmazonFACE, Carlos Alberto Quesada, pesquisador do Inpa.

As projeções apontam que o planeta vai ficar mais quente nesse período - na região de Manaus a temperatura deve subir até cinco graus Celsius –, o ambiente vai ficar mais seco como uma savana, com 60% a menos de chuva e mais gás carbônico. Segundo Quesada, a questão que determinará como a floresta será no futuro é justamente a resposta ao CO2, um dos principais gases do efeito estufa e base da nutrição da floresta pelo processo da fotossíntese.

“Às vezes, tendo mais CO2, acreditamos que a floresta possa ficar mais forte, mais resiliente e que aguente mais o aumento de temperatura. Neste caso, ainda teremos floresta daqui a 100 anos. Mas, se não encontrarmos esse efeito e descobrirmos que só tem o lado ruim, aí teremos a chance de nos preparar para o futuro com ações de mitigação e adaptação”, observa.

 

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