Pirata completa 20 anos como a mais robusta estrutura científica de...

por ASCOM - publicado 13/11/2017 09h57. Última modificação 13/11/2017 11h55.
Pirata completa 20 anos como a mais robusta estrutura científica de monitoramento do Atlântico 

Boias do Pirata estão ancoradas no fundo do Oceano Atlântico entre o Brasil e a África. Foto: Funceme

Brasil, Estados Unidos e França mantêm, há duas décadas, um sistema de boias ancoradas no fundo do Oceano Atlântico para observar variáveis atmosféricas e oceanográficas entre a América do Sul e a África. Afixadas por rodas de trem ao solo marinho, cada unidade das boias que compõem a rede de monitoramento do Pirata carrega sensores ao longo de seus cabos submersos. Os equipamentos lá instalados monitoram temperatura e salinidade, da superfície até 500 metros de profundidade, além de correntes oceânicas, precipitação, pressão, radiação solar, umidade do ar, velocidade e direção do vento.

A Rede de Previsão e Pesquisa no Atlântico Tropical (Pirata, na sigla original, em inglês) completou 20 anos de coleta de coleta e transmissão de dados em tempo real, se consolidando como a estrutura mais robusta de observação do oceano no mundo. Atualmente, a rede se baseia em um conjunto de 18 boias, sendo oito delas sob responsabilidade brasileira, na porção oeste do oceano.

Diante do momento histórico, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e a Marinha do Brasil viabilizam a substituição das oito boias nacionais do Pirata em expedição do navio de pesquisa hidroceanográfico Vital de Oliveira, que fará quatro pernadas durante três meses de navegação.

A expedição leva a bordo, ao todo, 60 pesquisadores e 10 projetos científicos relacionados a biogeoquímica do fundo do oceano, biologia marinha, contaminação da água, detecção de terras-raras, estudo de mudanças climáticas e fluxos turbulentos na interface com a atmosfera, entre outras áreas. A comissão inclui profissionais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Centro de Hidrografia da Marinha (CHM), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e das universidades federais da Bahia (Ufba), do Ceará (UFC), de Pernambuco (UFPE), do Rio Grande (Furg) e Fluminense (UFF).

“Essas medições ocorrem pela primeira vez de grau em grau de latitude geográfica, parando no caminho”, explica o coordenador-geral de Oceanos, Antártica e Geociências do MCTIC, Andrei Polejack. “É um arranjo de coleta oceanográfica com uma densidade amostral inédita, voltado a verificar, do mar profundo até o topo da atmosfera, como se dão processos físicos, químicos, geológicos e biológicos fundamentais para a compreensão de como o Atlântico responde às mudanças do clima e como ele afeta a vida no planeta.”

Plataforma

Construído na China e entregue à Marinha do Brasil em julho de 2015, o navio Vital de Oliveira chegou a participar da última campanha de substituição das boias do Pirata, mas não chegou a completá-la sozinho, porque teve que se deslocar ao sul para avaliar a qualidade da água na foz do rio Doce, no litoral do Espírito Santo, após o desastre ambiental de Mariana (MG), em novembro daquele ano.

Segundo o presidente do comitê nacional do Pirata, Paulo Nobre, a participação na campanha de 2015 expôs o potencial do navio como plataforma de pesquisa oceanográfica. “Já naquela ocasião, nós convidamos a comunidade científica brasileira a embarcar projetos nessa comissão de agora, a 17ª da história, que está sendo a primeira do Vital de Oliveira com começo, meio e fim, propriamente”, destaca o pesquisador, meteorologista do Inpe.

“O Vital de Oliveira permite pela primeira vez o embarque de até 40 pesquisadores por expedição. Antigamente, a gente ficava limitado a 10 cientistas e não conseguia fazer multiciência marinha”, lembra o pesquisador Moacyr Araújo, copresidente do Comitê Científico Internacional do Pirata.

O ineditismo da coleta de dados abriu caminho para uma negociação da comunidade científica por um número especial na revista Scientific Data, do grupo Nature. “Essa comissão Pirata não só embarca pela primeira vez 10 projetos, com 60 pesquisadores, como também faz um perfilamento, que são estações de medida de temperatura, salinidade e corrente, da superfície até o fundo do oceano, desde 19º Sul até 15º Norte de latitude, de grau em grau”, descreve Nobre. “Então, esse é um mapeamento nunca feito. Há uma grande expectativa de que ele se transforme em uma referência internacional para muitos estudos e para a própria repetição desse corte meridional.”

Legado

Em 20 anos de observação contínua, de acordo com Paulo Nobre, os dados abertos transmitidos pelo sistema geraram 270 artigos científicos em revistas de corpo editorial. “É algo de um valor científico de difícil quantificação”, afirma. “E vai gerar ainda muito mais, porque o estoque de informação acumulado pode ser digerido, garimpado e minerado por bastante tempo.”

O pesquisador do Inpe atribui a manutenção do Pirata à compreensão do MCTIC sobre a necessidade de manter a rede. “O ministério tem sido a nossa âncora do ponto de vista do financiamento das pesquisas, da troca anual das boias e de outros investimentos eventuais”, diz Nobre.

Segundo ele, a Marinha tinha um único navio com capacidade para fazer esse trabalho, o Antares, e não obstante se comprometeu durante todos esses anos.

“Como toda pesquisa em oceanografia, a disponibilidade de infraestrutura de apoio a pesquisa ou, mais precisamente, a disponibilidade de um navio para realizar as atividades no mar garante a perenidade do Pirata”, afirma Janice Trotte-Duhá, da Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha.

Já Moacyr Araújo, que também é professor da UFPE e coordenador da Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima), avalia a longevidade do sistema como um feito raro entre iniciativas semelhantes pelo planeta. “Para se ter uma ideia, o maior programa de variabilidade e previsibilidade climática do mundo, o Clivar, festejou 20 anos no ano passado”, compara Araújo. “Eu considero o Pirata hoje em dia o carro-chefe da oceanografia brasileira em termos de observação do Atlântico. Nos últimos anos, fomos convidados a apresentá-lo em Bruxelas, Lisboa, Qingdao e Roma como um show case, uma vitrine de cooperação acadêmica e científica de pesquisa em oceanografia.”

Dos principais sistemas de boias de observação marinha do globo, o Pirata só é mais novo que o TAO (Oceano-Atmosfera Tropical, na sigla em inglês), projeto iniciado em 1985 para tentar entender o fenômeno El Niño, no Pacífico. “Como chegamos à terceira década agora, estamos entrando na era do que seria representativo para uma análise de mudança climática a partir dessa base de dados”, aponta o pesquisador da UFPE. “Então, começamos a capturar sinais de variações que não seriam característicos do padrão de funcionamento do Atlântico tropical, a exemplo da quantidade de água que sai do Índico, mais quente e salina, atravessa o oceano e vem bater aqui no Brasil.”

Ele reforça a necessidade de uma segunda avaliação do Pirata, revisado e ampliado em 2006, para definir as fronteiras a serem desbravadas pela observação oceânica no futuro. “Agora, o Clivar coordena um processo mais abrangente, que deve envolver também outros sistemas, como o TAO e o Triton, no Pacífico, e o Rama, no Índico”, informa Araújo. “É aquela história de um oceano único. A gente está precisando de mais interação, na verdade.”

Colaboração

A decisão de dedicar o tempo de navio necessário ao projeto, tomada há 20 anos, fez do Brasil o líder pioneiro da cooperação com Estados Unidos e França. “A ideia surgiu entre pesquisadores dos três países em 1995, durante um encontro científico em Fortaleza, mas somente se transformou em ação quando a Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha [DHN] entendeu a oportunidade estratégica de contribuir para esse conhecimento que estava simplesmente indisponível. O Atlântico tropical era um grande vazio observacional”, recorda Nobre.

Os EUA entraram na parceria por deter a tecnologia das boias e de sua ancoragem profunda, dominada pelo Laboratório Ambiental Marinho do Pacífico (PMEL), ligado à Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (Noaa). “Assim, o Pirata virou realidade ao associar a capacidade tecnológica dos Estados Unidos à capacidade de navio do Brasil”, rememora. “A França se reposicionou em 1996 e decidiu também apoiar com tempo de navegação.”

Atualmente, além das oito boias do Brasil, a França se responsabiliza por outras seis, próximas à costa africana, e os EUA, por quatro, ao norte da linha do Equador. “Os americanos trocam menos boias, mas em compensação calibram os sensores das 18 unidades, por meio da Noaa”, esclarece Araújo, copresidente do Comitê Científico Internacional ao lado de Bernard Bourlès, pesquisador do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD, na sigla em francês).

“A tecnologia obtida com esses instrumentos disponibilizados pela Noaa é outro aspecto inovador, pois são poucos os países que têm a oportunidade de absorver tal tecnologia, a custo muito baixo para nós”, ressalta Janice Trotte-Duhá.

Informação

Captados em intervalos de poucos minutos pelos sensores instalados nas boias e em seus cabos submersos, os dados são transmitidos em tempo real para centros como a Noaa, o Inpe e o Météo-France, serviço francês de meteorologia. “O objetivo é entender como acontece a troca de energia e massa entre o oceano e a atmosfera e como isso interfere justamente na variabilidade do clima do planeta”, define o pesquisador da UFPE.

“É importante dizer que esses dados são completamente abertos. Então, qualquer pessoa, em qualquer lugar ou momento, pode baixá-los, basicamente online, nas homepages dos parceiros. Isso facilita muito, porque qualquer instituição pode se servir dessas informações”, comenta Araújo. “Quando se compara de 20 anos para cá, existe um crescimento exponencial tanto na quantidade de arquivos baixados quanto na consequente realização de artigos científicos com esses dados. Isso significou um avanço enorme para a compreensão do oceano e da variabilidade do clima. É por isso que o Pirata tem todo esse sucesso internacional. É hoje provavelmente a estrutura mais consolidada de observação do Atlântico tropical no mundo.”

Na visão do coordenador da Rede Clima, o Pirata se diferencia pela qualidade de seus dados abertos e por outros dois fatores: decisões baseadas na ciência e suporte à formação de recursos humanos. “Nosso comitê faz da governança científica um ingrediente primordial, porque tudo se decide pelas prioridades de pesquisa, com três representantes de cada país e mais dois cientistas ad hoc, de fora”, relata. “E o terceiro componente é que a gente orienta pesquisas de vários programas de pós-graduação para utilizar os dados do Pirata. Então, a produção acadêmica é uma vertente também muito importante do sistema.”

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